A Ópera do malandro, de Chico Buarque de Holanda, estreou em Julho de 1978, no Rio de Janeiro. Era época da ditadura militar e o Brasil ainda atravessava um período de repressão, menos intensa que nos “anos de chumbo”, é bem verdade. Apenas para nos situarmos no tempo, foi no mesmo ano que nasceu o primeiro bebê de proveta na Inglaterra (Louise Brown), faleceram Orlando Silva, Ziembinski e o Papa Paulo VI, substituído por João Paulo I, que morreu em seguida, dando lugar a João Paulo II. Mas a Ópera continua absolutamente atual, se lembrarmos a crise de um País entregue à falcatrua, ao comércio de bundas, ao capital estrangeiro, à corrupção – questões prementes desde o final dos anos 70, quando a peça foi escrita.
O texto, baseado nas Ópera do mendigo, de John Gray (de 1918) e na Ópera dos três vinténs, de Bertold Brecht e Kurt Weill (de 1928), é ambientada num bordel e retrata a malandragem brasileira, em espetáculo musical, com composições de Chico Buarque de Holanda. Em meados dos anos 80, o conceituado cineasta Ruy Guerra (de Os Cafajestes e tantos outros filmes) transpôs a obra para o cinema. Várias já foram as versões apresentadas no teatro; a última delas trouxe a direção de Gabriel Villela, no ano de 2000 .
Chico Buarque, em 1978, declarou que a sua Ópera do Malandro “é um texto novo, em cima da Ópera do Mendigo (The Beggar’s Opera), com detalhes de Brecht”. No elenco da montagem original, dirigida por Luiz Antonio Martinez Corrêa, participaram Otávio Augusto (Max), Marieta Severo (Terezinha), Elba Ramalho (Lucia) e Emiliano Queiroz (Geni).
Ambientada em um bordel, ela conta a história de um malandro carioca, tentando sobreviver nos anos 40, final da ditadura de Getúlio Vargas – clima bem parecido com o de 1978. Como espetáculo musical, que é, a trama gira em torno de Max, ídolo dos bordéis. A temática, como não poderia deixar de ser, retrata a malandragem brasileira no submundo da cidade do Rio de Janeiro, com todos os ingredientes capazes de nos transportar àquela época, com a chegada das meias de nylon e dos produtos norte-americanos, que entravam clandestinamente. Não muito diferente da cena das falsificações vendidas pelos camelôs de nossa cidade maravilhosa.
A Ópera do malandro foi lançada numa época em que a poética de Chico Buarque estava “afiadíssima”. Ele vinha de uma tentativa frustrada de montar outro musical, Calabar, sufocado pela censura do regime militar. Talvez, também por isso, a Ópera fale de corrupção policial, do jogo entre o aparato oficial e a bandidagem, tudo bastante atual como mostra o noticiário dos jornais. A trilha produziu várias preciosidades que foram fazer sucesso em outros discos, como Folhetim, cantado por Nara Leão, na trilha, e sucesso com Gal Costa. Chico pegou O meu amor interpretado por Marieta Severo e Elba Ramalho para o disco que tinha seu nome como título, lançado em 1978, e no qual também incluiu a Homenagem ao malandro na trilha.
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