terça-feira, 18 de dezembro de 2007

ANTEMANHÃ

0 mundo está começando
agora, na tua mão.
Tudo pode acontecer!

Cuidado!, de tua palma,
aberta sob as estrelas,
o mundo está começando
a se erguer: como se fosse
um pássaro que se acorda,

que acabou de se acordar,
e vai sair para um vôo

- porque tem fome de céu.
(Tomara que seja azul!)

É um pássaro velho, o mundo,
mas ainda sabe dormir
como um menino. Ainda pode
esquecer o seu chão triste
- para sempre - entre as funduras
de algum mar que se acabou.
Pássaro velho, o teu mundo,
entretanto ainda consegue
- tal como agora, repara!
inventar subitamente
um vôo e um rumo - e se alçar
cantando uma canção nova,
canção feita de manhãs.

E sobretudo ainda sabe
chegar - mas como quem chega
a um lugar que nunca viu
(mas onde sempre morou,)
e que o vai achando lindo,
como se nunca jamais
tivesse te visto, e vai
chegando e vai repousando
um sorriso em teu olhar,
e então te ama, o velho mundo.

E, porque ama - quem diria!,
murcho e seco parecia!
se esquece tão docemente
de que já é velho e era gasto,
e de repente se perde
do tempo que ele trazia
e, louco, vai começando
como um frágil passarinho
acabando de nascer.

Pois então, muito cuidado,
que o mundo está começando.
Da palma de tua mão,
já está se erguendo, lá vai
o pássaro - de tão lindo,
nem parece velho - voando
já está voando, e vai voando
- e é cristalina a manhã.

[Thiago de Mello]

1 comentário:

António Maia disse...

Maritaa, Que ternura, este poema!
Consegui lê-lo com a tua voz :-) Juro! Soou melhor...

... louco, vai começando
como um frágil passarinho
acabando de nascer.

... Pois então, muito cuidado,
que o mundo está começando.

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Lindo!!!!! Apetecia-me analisá-lo todo, pétala por pétala ahahah mas receio ficar demasiado despido ahahahahaha

Muito obrigado Maritaa por existires connosco neste pedacinho, que espero te mereça.

venerando-te